Conversas de Design com Carvalho Araújo, um olhar analítico sobre a arquitectura

Conversas de Design com Carvalho Araújo, um olhar analítico sobre a arquitectura

 

A inclinação pela arquitectura aconteceu naturalmente, na procura por um curso que apelasse a outros valores e outros comportamentos. Entre o Porto e Lisboa, concluiu o curso de Arquitectura em 1990 e desde então participou em inúmeros projectos de renome com uma identidade muito própria, legitimados pelos vários prémios que já recebeu.

Defende uma arquitectura activa, que se preocupa com o despertar de sentimentos, com aquilo que aparentemente não é óbvio. Tal como o silêncio é uma das melhores formas de afirmação, a ausência, desde que imponha o seu respeito e que tenha equilíbrio, é também fundamental. Para si, os projectos devem atingir o limite do essencial porque a nudez, no sentido puro da palavra, é onde reside a verdade que procura na arquitectura e nos projectos. É assim o Arquitecto Carvalho Araújo, um olhar analítico sobre a forma como se faz o projecto, e também ele depurado de excessos.

E foi num ambiente informal, num atelier onde a criatividade acontece em cada detalhe, que fomos recebidos para uma Conversa de Design com este ícone da arquitectura nacional. Muito obrigado Carvalho Araújo por esta conversa tão verdadeira e inspiradora!

:::: Fotografias por: André Baeta ::::

Conversas de Design com Carvalho Araújo, um olhar analítico sobre a arquitectura

R&TV: Concluiu o curso de arquitectura em 1990 e desde então participou em inúmeros projectos de renome com uma identidade muito própria, legitimados pelos vários prémios que já recebeu. Como e quando nasceu esta paixão pela arquitectura?
CA: Não acho que tenha escolhido a arquitectura por uma razão especial. Foi mais por uma questão de oportunidade de entrar num curso que era mais interessante, que apelava a outros valores, a outros comportamentos. Como tinha boas notas nessa área, tive alguma facilidade em entrar logo directamente na escola que eu pretendia, a Arquitectura no Porto que na altura era a ESBAP – e eu vivi a passagem das Belas Artes para a Escola de Arquitectura.

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R&TV: Digamos então que nesse caminho das Belas Artes, foi a arquitectura que o escolheu.
CA: Eu fui para as Belas Artes mas para o curso de Arquitectura. Há sempre algo que nos desperta mais e  (isto reflecte-se na forma como eu me comporto) eu valorizei muito o ambiente que ia encontrar na escola: mais informal, mais criativo e menos científico. A minha outra opção seria a Engenharia mas optei pela Arquitectura. Como venho de uma família de industriais, rapidamente me apercebi de alguma vantagem que poderia ter o desenho na própria indústria e aí surgem os meus primeiros trabalhos, mesmo ainda enquanto aluno.

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R&TV: E o que significa a arquitectura para si?
CA: Não tenho uma definição muito clara de arquitectura porque eu vivo muito os momentos. Mas a arquitectura não deixa de ser a gestão de algo: do espaço (que é o lugar comum) mas talvez mais importante do que isso, a gestão de vontades, de programas, de necessidades das próprias pessoas – que eu valorizo muito – e dos lugares. E tentar conjugar isso com uma identidade própria e com uma forma de estar.

 

R&TV: Mas há um sentimento na arquitectura?
CA: Há muito sentimento na arquitectura, ela é feita disso. Há uma arquitectura passiva e uma arquitectura activa e eu defendo a activa, que é aquela arquitectura que se preocupa fundamentalmente com isso, com o despertar de sentimentos, com aquilo que aparentemente não era óbvio. É isso que eu procuro, procuro sempre surpreender-me a mim próprio, o que é difícil, mas enquanto tiver essa vontade, acho que ainda tenho lugar naquilo que estou a fazer. Chego sempre ao final dos projectos e das obras com alguma sensação de frustração, de não conseguir atingir aquilo que quero porque, à medida que vamos atingindo alguns objectivos, eu vou colocando sempre um pouco acima essa linha que à partida nos propusemos atingir. Não acho que se consiga atingir aquilo que pensamos.

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R&TV: Estudou em Braga até ao secundário, indo depois para o a Escola Superior de Belas Arte do Porto e, no último ano, para Lisboa. De que forma este percurso marcou o seu perfil como profissional?
CA: Começando pelo fim, foi muito bom para mim porque o ensino na altura do Porto era muito marcado por uma determinada tendência, nomeadamente pela valorização do desenho, era muito restritivo, muito fundamentalista. Foi bom ter tido a oportunidade de me aperceber no último ano de um outro modo de estar, de ver a arquitectura e o projecto. Porque é que eu fui para Lisboa? O meu pai tinha uma indústria, eu já desenhava e a área do projecto passou a ser conversa diária. O meu pai decidiu contactar alguns arquitectos, nomeadamente o Siza, e propor-lhe fazer um espaço comercial em Lisboa. Eu é que era o responsável pelo acompanhamento da obra e desenvolvimento do projecto. Nessa altura, como tinha que estar em Lisboa mas tinha o curso no Porto, que exigia grande assiduidade e uma avaliação contínua, eu começava a nem estar num lado, nem no outro. Por isso, decidi ir para Lisboa. Ou seja, para estar mais presente na obra, fui acabar em Lisboa, o que foi bom para mim.

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R&TV: Como é o dia-a-dia no Atelier Carvalho Araújo?
CA: Apesar deste ambiente informal e do próprio espaço provocar essa informalidade ao  incentivar a criatividade através da criação de situações menos comuns, de ambientes e comportamentos mais rebeldes, não deixa de ser um dia-a-dia muito sossegado em que as pessoas só se notam pelo próprio trabalho. Isso também é reflexo do empenho, do entusiasmo e da identificação que as pessoas têm com aquilo que estão a fazer. Os trabalhos quase nunca são entendidos como uma missão mas mais como uma procura e isso entusiasma-nos. Dentro deste ambiente muito informal, há ali uma concentração e uma forma de estar que é contraditória.

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R&TV: Quais as principais referências da arquitectura e do design para si?
CA: Eu não vivo de referências fixas, acho que a informação nos chega de tanto lado que é injusto nomear A ou B ou C como a nossa grande referência. É muita coisa em conjunto, e com a experiência acumulada, cabe-me a mim conseguir filtrar todas estas informações. Neste momento a referência para mim está nos lugares, no cliente. Essas é que são as minhas preocupações. E depois é fazer, assim irá sempre resultar.

 

R&TV: De espaços comerciais, a habitações e edifícios públicos, tem já um vasto portfólio a nível nacional. Tem algum projecto que considere ser especial?
CA: Todos eles são especiais.  A minha forma de estar faz com que eu transforme seja que projecto for numa coisa muito especial para mim. Uma das minhas preocupações é não olhar à dimensão nem à importância de um projecto, ou seja, do grande fazer pequeno e do pequeno fazer grande. Isto também é uma estratégia de trabalho. Do pequeno fazer grande significa um projecto que à partida poderia ser menos importante e mais insignificante, enquanto o concebo tento transformá-lo numa obra grandiosa. E o contrário, quando temos um projecto grande, tento transformar num projecto pequeno no sentido de simplificar o processo de concretização. Ou seja, a complexidade dos projectos é toda igual, as questões que se levantam em cada projecto, independentemente da escala, da dimensão e do cliente, são sempre as mesmas. Mas não posso deixar de contornar aquela questão do que são os projectos mais mediáticos, em momentos muito especiais, que tenho que dizer que marcam. Marcam porque estão sempre presentes e os outros fazem-se e vão passando – e aí posso dizer que há alguns.

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R&TV: No ano passado ganhou o Prémio Nacional da Reabilitação Urbana com o edifício GNRation, onde refere que utiliza “o conceito de ocupação como motivo” e a “a ocupação do Homem pela Natureza”. Como foi o processo de (re)criação deste espaço? Foi um desafio?
CA: Foi um desafio muito interessante. Muito participado e só por isso já vale a pena o projecto. Tem alguma dimensão e foi interessante porque é uma forma de fazer projecto com a qual eu me identifico muito – e há muito trabalho que tenho onde as pessoas vêm ter comigo um pouco por esse comportamento que eu tenho na arquitectura, uma forma de estar e uma forma de ver e sentir a arquitectura. Foi uma oportunidade para fazer um edifício público em Braga (que foi o primeiro) e num momento muito particular, por vários motivos: desde questões políticas até se pretender fazer daquilo um edifício de referência para a Capital da Juventude. Então aproveitei aquele edifício para, de uma forma aparentemente pacífica, no sentido de intervenção do exterior, tentar explorar situações da arquitectura e do projecto que estão para além do desenho, como a ambição de regenerar toda aquela parte ao nível urbano e as mensagens fortes de identidade que o projecto contém. E depois também surgem aqueles problemas da arquitectura: simplificar todos estes edifícios confusos (porque aquilo é um somatório de pequenas fases de construção), simplificar toda a estrutura de espaço interno através de um desenho mais simples mas que vem tudo a partir daquele corte no edifício que é a nova entrada. Tudo isto é uma sequência lógica de pensamentos mas uma sequência feliz, onde no final tudo se conjuga, com uma estratégia global mas são coisas avulsas que afinal resultam num todo. E aquela deslocação da entrada para o canto, é uma forma de criar uma imagem e uma identidade forte para o edifício e, por outro lado, é uma preocupação urbana de valorização da lateral do edifício que era secundarizada, paralelamente ao aumento da dimensão do passeio através da anulação de uma via de trânsito. E mais, é também um corte com o passado e por isso eu defendo que a gestão do edifício deveria ter o modelo do ocupa. Até aqui aquilo era um edifício militar onde se impunha a disciplina e o rigor, e com este tipo de intervenção nós estimulamos e incentivamos o erro como um processo criativo. A entrada também se desloca porque em frente à antiga entrada o que vemos é um túnel de acesso automóvel.

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R&TV: Os seus trabalhos têm mensagens?
CA: Todos. Algumas mais evidentes, outras menos evidentes. Também depende do tipo de trabalho, se é público, se é privado, mas todos têm uma mensagem. Mais do que mensagem, têm um conceito forte. Há sempre a preocupação de não ser uma obra anónima. Ela até procura esse anonimato pelo seu equilíbrio, pelo seu silêncio – que é uma forma de afirmação – mas a obra tem que despertar qualquer coisa e isso não é visível. É esse despertar de sentimentos que eu procuro na arquitectura.

 

R&TV: Até pouco tempo o arquitecto era um artista, no sentido da escultura, da pintura e da obra em si. Hoje em dia o arquitecto é um técnico?
CA: Antes haviam poucos arquitectos e o arquitecto era mais artesão do que artista, tinha tempo para essa tarefa, tinha uma disponibilidade de tempo para reflectir sobre a obra, para acompanhar, para usufruir daquilo que estava a fazer. Hoje vivemos noutro tempo, nem é melhor, nem é pior, com outra dinâmica e outra velocidade. O arquitecto não sei se é um artista, mas eu recuso-me a fazer essa arquitectura imediata. Os arquitectos acomodaram-se, por culpa também do que se tem passado à volta, a industrialização permite isso. Hoje olhamos para um vão de qualquer edifício e só vemos um vidro. Isto é um exemplo, mas está tudo tão tipificado que faz com que o arquitecto se acomode um bocado. O que eu procuro nas obras é aquilo que não se explica facilmente, não é aquela beleza imediata.

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R&TV: Como decoradores de interiores, apreciamos o seu trabalho de uma forma muito especial. O seu trabalho inspira-nos de uma forma forte, positiva e completamente depurada de excessos, como a célebre frase “less is more”. O que é a essência que traduz o seu trabalho nesta área residencial?
CA: Menos é mais, não sei se é verdade. Menos é menos e mais é mais. O que eu procuro na obra não é o menos ser mais, é atingir os equilíbrios. O que está lá faz falta e se quisermos retirar alguma coisa, dificilmente conseguimos. Um dos problemas de muitas obras é que às vezes é preciso rever os preços. Nas nossas obras dificilmente precisamos de rever o preço porque não procuramos materiais exageradamente caros, não é isso que nos move. Como está tudo no limite do essencial para compor determinadas coisas, é o menos  – o menos possível para atingir determinados objectivos, o que não quer dizer que menos é mais. O menos é só aquilo. E precisamente por respeito a tudo o resto, são projectos depurados porque atingem esse limite do essencial mas deixa-se espaço para que os outros possam trabalhar sem esses condicionalismos evidentes, apesar de que existe uma estratégia para condicionar. Tal como o silêncio é uma das melhores formas de afirmação, a ausência, desde que imponha o seu respeito e que tenha equilíbrio, é uma estratégia para elevar o nível de exigência para que os outros, quando se depararem com esse projecto, também tenham esse tipo de preocupações. A arquitectura tem que ter vida, tem que despertar sentimentos, é como uma pessoa quando nasce, ela não precisa de mais nada, não é por estar vestida de uma determinada forma que ela vai ser melhor ou pior. A nudez, no sentido puro da palavra, é o que é verdadeiro e eu procuro a verdade na arquitectura, nos projectos. Acho que é isso que nos distingue, é uma forma de estar, de pensar os problemas que não se limita só ao desenho, antes pelo contrário, o desenho é só uma ferramenta que nos permite comunicar melhor ou pior uma determinada ideia.

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R&TV: No seu portfólio tem manifestado também uma boa presença em São Paulo, tendo já escritório na cidade. Porquê a escolha desta cidade?
CA: Tem muitos motivos, alguns muito pessoais, outros mais evidentes. Fala-se a mesma língua, é o Brasil que é um país que eu gosto pelo sol, pela praia, pelo clima – não que São Paulo tenha isso mas tentei outras cidades e cheguei à conclusão que é em São Paulo que se passa tudo. Por isso enveredei por São Paulo, que é uma cidade muito interessante, é preciso tempo para se aprender a gostar. É mais fácil partir de São Paulo para outros lados e isso está a acontecer.

 

R&TV: Quais os projectos para o futuro para o atelier Carvalho Araújo?
CA: É não desvirtuar esta forma de pensar, de estar. É desenvolver projectos sempre com a preocupação de não ir contra esta forma de pensar o projecto, procurar sempre conseguir conquistar o cliente por esse lado.

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R&TV: E para quando um Pritzker?
CA: Não vou dizer que as pessoas não pensam em distinções, é uma forma de valorizar aquilo que fazemos e de sermos reconhecidos mas isso tem que ser consequência do trabalho e não um objectivo. Acho que talvez dentro de 10 a 12 anos haja outro prémio desses para Portugal porque de facto a arquitectura portuguesa tem alguns bons intérpretes. Mas isso depende de muita coisa, da forma como as pessoas se movimentam.

 

R&TV: Se compararmos a literatura com a arquitectura, na literatura há muito bons contadores de histórias, nomeadamente muitos portugueses. E na arquitectura também há muita gente a fazer boa arquitectura. Se o compararmos com algum escritor português da actualidade, seria com certeza ao António Lobo Antunes, que é um contador de histórias que desperta coisas que mais ninguém desperta.  
CA: É uma pessoa que eu admiro muito, adoro ouvi-lo falar mas confesso que não consigo ler. Mas é das pessoas que mais gosto de ouvir falar, tem uma personalidade fantástica e sofre com aquilo que faz. Isto tem a ver muito comigo, eu não consigo me surpreender com aquilo que faço e isso é mau, e cria uma angústia, uma insatisfação constante.

 

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